Todas as preces do mundo a favor de um lar.




Ela sonha com um lar. Não necessariamente uma casa grande, com janelas imensas ou móveis escolhidos em revistas de decoração. Ela quer um lugar que tenha cheiro de bolo de laranja saindo do forno, grama verde crescendo na varanda e paredes banhadas por aquela cor de fim de tarde, um amarelo tão claro que parece ter sido misturado com a luz do sol. Quer o cheiro da terra molhada depois da chuva, as manhãs preguiçosas de domingo e um abraço tão aconchegante que não precise se perguntar quando vai acabar.

Ela quer as pequenas coisas. E talvez seja justamente isso que torne seu desejo tão imenso.

Porque essa mulher quer amar alguém. Mas não de qualquer maneira. Não quer passar a vida tentando decifrar silêncios, adivinhar intenções ou encontrar sentido nas atitudes de quem nunca soube se queria ficar. Não quer precisar desenhar mapas para chegar ao coração de alguém que, mesmo conhecendo o caminho até o seu, insiste em se perder.

Ela quer um amor que tenha endereço. Que saiba o caminho de volta. Que não a deixe esperando na janela por um carro que nunca dobra a esquina, nem olhando para o telefone como quem espera uma notícia capaz de mudar o rumo dos seus dias. Quer as cartas que chegam, as ligações atendidas, as visitas combinadas e cumpridas. Quer alguém que se lembre de procurá-la, mesmo quando o mundo estiver ocupado demais.

Porque, durante muito tempo, ela andou.

Andou por estradas que não levavam a lugar algum, atravessou as linhas confusas dos indecisos e dos inconstantes, fez curvas desnecessárias por acreditar que, depois daquela próxima curva, alguém finalmente estaria esperando. Seus sapatos estão gastos. Há poeira acumulada nas costuras, marcas de caminhos que ninguém viu e uma porção de despedidas escondidas nas solas. Ela já caminhou tanto neste mundo de meu Deus que, às vezes, nem sabe dizer em que momento deixou de estar indo ao encontro de alguém e começou, simplesmente, a fugir da solidão.

Foram tantas as estradas em que ninguém a procurou. Tantas as cartas que nunca chegaram, as ligações que não vieram, as promessas que perderam a validade antes mesmo de se tornarem realidade.

E, ainda assim, ela continuou acreditando.

Não porque não tenha aprendido. Ela aprendeu. Aprendeu que sentir muito não faz alguém sentir o mesmo, que disponibilidade não é sinônimo de compromisso e que existem pessoas capazes de despertar sonhos que jamais tiveram a intenção de construir. Aprendeu, sobretudo, que não se pode fazer de qualquer lugar um lar só porque se está cansada de dormir ao relento.

Mas há coisas que o cansaço não consegue matar. E a vontade de amar talvez seja uma delas.

No fundo, ela ainda quer encontrar alguém com quem possa ir à Lua.

Não é força de expressão. Ela quer mesmo essa imensidão. Quer olhar para o céu e imaginar que, se fosse possível atravessar a atmosfera, vencer a distância entre os planetas e pisar no chão prateado de algum lugar distante, aquela pessoa estaria ao seu lado. Os dois com poeira lunar nos sapatos, rindo da própria insignificância diante do universo, descobrindo que até a Lua, tão solitária aos olhos de quem a contempla daqui, pode ser um lugar bonito quando se tem companhia.

Ela quer alguém com quem possa ir até o fim do mundo sem sentir que está se afastando de casa.

Porque talvez seja isso o amor: descobrir que o universo é infinitamente maior do que imaginávamos e, ainda assim, encontrar em alguém um lugar onde seja possível descansar. Um lugar em que não seja preciso merecer o carinho todos os dias, disputar a atenção com a indiferença ou diminuir o próprio brilho para caber na vida de outra pessoa. Um lugar onde se possa existir por inteiro.

E, quando tudo ficar difícil, quando os dias perderem a cor e a vida parecer grande demais para os dois, que ainda haja uma varanda. Grama verde. Um bolo de laranja esfriando sobre a mesa. O cheiro da chuva chegando antes mesmo que as primeiras gotas toquem o chão.

Que haja um abraço.

Um daqueles que não soltam na primeira dificuldade, que não desaparecem quando a rotina aperta, que não transformam o afeto em recompensa. Um abraço que diga, sem precisar de palavras, que ela não precisa continuar caminhando para provar que merece ficar.

Talvez ela ainda não saiba onde esse lar está. Talvez tenha procurado nas pessoas erradas, em cidades que não eram suas, em histórias que nunca chegaram a começar de verdade. Talvez ainda precise caminhar um pouco, embora seus sapatos já estejam cansados e seu coração, às vezes, também.

Mas, se um dia encontrar esse alguém, espera não precisar mais olhar para trás para conferir se está sendo seguida.

Espera poder caminhar de mãos dadas, sem pressa, sem mapas, sem o medo de que o outro desapareça na primeira bifurcação. Espera descobrir que o amor não precisa ser uma estrada interminável, cheia de desvios e placas contraditórias. Que pode ser também a chegada.

E, quando finalmente entrar em casa, deixar os sapatos gastos perto da porta, com toda a poeira dos caminhos que percorreu. Inclusive aquela poeira imaginária da Lua, dos lugares distantes que sonhou conhecer e das versões de si mesma que precisou abandonar pelo caminho.

Então, quem sabe, ela olhe para aquele homem, para a luz amarela atravessando a janela, para a chuva desenhando pequenos rios no quintal e pense que não precisa ir a lugar algum naquela noite.

Não porque tenha desistido do mundo.

Mas porque, pela primeira vez em muito tempo, o mundo inteiro parece caber ali.

E a mulher que passou a vida procurando um lar finalmente entende que não precisava de alguém que lhe prometesse o universo.

Precisava de alguém com quem pudesse atravessá-lo e, ainda assim, ter para onde voltar.

Alguém que fizesse do amor não mais uma estrada, mas um endereço.

Um lugar onde, enfim, ela pudesse tirar os sapatos.

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