Um sábado qualquer.


O sábado começou sem nenhuma pressa.

Eu acordei um pouco mais tarde do que de costume, ainda envolvida pelo conforto dos lençóis. A luz atravessava as cortinas e iluminava lentamente o quarto, enquanto uma brisa fresca entrava pela janela.

Eu fiquei alguns segundos olhando para o teto. Então me lembrei da tarde anterior. Casa Orbe. A exposição. O vinho. A conversa. E Elian. Um sorriso divertido, pequeno apareceu no meu rosto. Foi uma lembrança boa. Só isso.

Eu não pretendia transformá-la em alguma coisa maior. Me levantei, abri as janelas e fui preparar o chá de camomila. Quem me conhece sabe que não gosto de café. Eu prefiro chá.  Enquanto espero a água ferver, olho para o celular. Tinha uma mensagem de minha melhor amiga, Helena. 

Helena sabia de quase tudo da minha vida. É minha confidente, uma das minhas amigas mais antigas, tem cabelos longos lisos e pretos, feição indígena, sorriso divertido, éramos amigas de longa data, desde o ensino médio. Ela é intensa, sincera, reservada assim como eu, mora em Vila Serena e sempre que eu trabalho na filial, sinto vontade de vê-la e contar como anda a minha vida, além de saber da dela, é claro. 

Me preocupo sempre com seu bem estar, ela é uma empresária dona do seu próprio nariz, independente, solteira e extremamente competente. Tem uma empresa de aluguel de salas corporativas e sempre desenrola minhas reuniões de emergência quando é fora do expediente e não tenho a sede do trabalho pra fazê-las. 

Helena: Brunch. Meio-dia. Não aceito não.

Eu sorri para o celular.

Jullia: Isso foi um convite ou uma convocação?

Helena: Os dois.

Jullia: Então estou indo.

Me arrumei com um vestido de linho amarelo manteiga, coloquei um salto que tem flores decorando (uma vibe Itália que amo) soltei o cabelo, me maquiei com um dourado, pêssego e blush coral que é o meu favorito, passei um perfume fresco verano in firenze e fui totalmente presa ao pensamento que eu queria estar na Itália mesmo, fazendo um tour pelas cidades intimistas, pequenas, no interior do interior. Nada de gelato e coliseu. Eu queria paisagens, vento no cabelo, flores e estar num quadro vivo. 

Pouco antes do meio-dia, eu chego ao restaurante. Por coincidência ou não, era um restaurante Italiano, o Giordano. Helena já estava sentada em uma mesa próxima à janela, para o nosso brunch. 

— Finalmente!

— Eu estou três minutos atrasada. Enfatizo. 

— Três minutos que poderiam ter sido usados para começar a comer. Ela sorri divertido. 

Eu ri e me sentei.

— Bom dia para você também. 

— Bom dia, mulher.

Nós duas fizemos os pedidos dos brunchs, toasts, bebidas e começamos a conversar sobre assuntos completamente aleatórios.
Trabalho. Uma viagem que Helena queria fazer. Uma série nova. Off campus. Um ator lindo. Uma cliente particularmente complicada. Até que, naturalmente, a conversa chegou ao dia anterior. Helena sabia exatamente aonde eu estava, porque postei algumas obras da Casa Orbe em uma rede social. Além de conversarmos sobre o encontro inesperado e o diálogo interessante. Coisa rara hoje em dia ter um diálogo profundo ao invés dos casuais. 

Helena apoiou o cotovelo sobre a mesa.

— E então?

Eu levantei os olhos.

— E então o quê?

— Casa Orbe.

Eu sorri.

— Foi bom. Falei olhando a rua do lado de fora da janela. 

— Só?

— Só.

Helena estreitou os olhos.

— Você está escondendo alguma coisa.

— Não estou escondendo nada.

— Você encontrou o homem mais bonito daquela empresa numa galeria de arte, sozinha, tomando vinho, e está me dizendo que foi apenas “bom”?

Eu comecei a rir.

— Quando você coloca desse jeito, parece uma cena de filme.

— Porque é uma cena de filme.

— Não é.

— Ele falou com você?

— Falou.

— E?

— Conversamos.

— Sobre?

Eu pensei por alguns segundos.

— Arte. Trabalho. Reuniões. Sobre a casa Orbe. Algumas coisas aleatórias. 

— Ele flertou?

— Não sei.

Helena arregalou os olhos.

— Como assim não sabe?

— Porque eu não fiquei tentando descobrir.

Ela tomou um gole do café.

— Foi uma conversa agradável. Só. Falei, estreitando os olhos. 

— Você gostou dele?

Eu fiz uma pequena pausa.

— Eu gostei de conversar com ele.

Helena sorriu.

— Isso já é alguma coisa.

— Não necessariamente.

— Jullia...

— Helena.

As duas riram.

Eu apoiei o garfo no prato.

— Ele é meu chefe. Falo olhando novamente pra janela. 

— Um dos seus chefes.

— Continua sendo meu chefe.

— E daí?

— Daí que eu não misturo as coisas.

Eu disse aquilo com tranquilidade. Não havia amargura. Nem medo. Era apenas uma regra que tinha aprendido a seguir. Não busco romance aonde eu trabalho. Eu busco sucesso naquilo que amo fazer. E isso eu já tenho e estou construindo ainda mais. 

— Além disso — continuou —, eu não conheço esse homem. Só conheço a versão dele que aparece na empresa e em eventos corporativos.

Helena ficou em silêncio por alguns segundos.

— E você não está curiosa?

Eu sorri. 

— Um pouco.

— Sabia!

— Curiosidade não é intenção.

Helena apontou para mim. 

— Essa frase foi muito madura.

— Eu sou uma mulher madura.

— Infelizmente.

Eu sorrio.  Depois olho para a janela.

— Foi só uma tarde agradável, Hel. Não quero ficar inventando significado. Minha amiga assentiu.

— Justo.

— E se eu encontrar ele novamente?

— Você vai fazer o quê?

Eu pensei, de maneira divertida. 

— Trabalhar.

Helena riu.

— Você é impossível.

— Sou profissional.

— Claro.

Nós duas voltamos ao brunch. E o assunto mudou. Eu fiquei satisfeita.Porque era exatamente assim que eu queria que fosse. Casa Orbe havia sido bonita. Elian era interessante. Eu tinha gostado da breve companhia dele. Mas não precisava fazer nada a respeito.

Se a vida quisesse colocar aquele homem novamente diante de mim, colocaria. Se não quisesse, tudo bem também. Ele continuaria sendo referência como empresário e sócio majoritário de uma grande empresa em ascensão e eu seria a grande mulher que amo o que faço e escrevo com todo o amor do mundo. Porque eu sou amor, então não importa se outras pessoas seriam amor. Eu sou e deposito isso no que faço, era nítido e fácil identificar. Por isso a intensidade e entrega ficavam visíveis quando Elian me observava de forma mais detalhada, como ele sempre faz. 

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