Há tanto de mim ainda por viver.
Como alguém pode estar tão cansada tendo tanta coisa bonita dentro de si? É estranho carregar um universo inteiro no peito e, ainda assim, sentir que a própria vida ficou pequena demais para caber nele. Como se houvesse jardins em mim, mas eu estivesse há tanto tempo tentando florescer em concreto que já não soubesse mais distinguir o que é falta de água do que é falta de sol. Eu continuo sendo feita de sonhos, de delicadezas, de curiosidades, de vontade de conhecer lugares, pessoas, histórias, de amar e ser amada. Mas há um tipo de cansaço que não se resolve com uma noite de sono.
Talvez porque existam exaustões que nascem muito antes do corpo. Nascem da repetição. Do despertador que toca para mais um dia que parece igual ao anterior. Das obrigações que se acumulam enquanto a vida pessoal vai ficando para depois. De trabalhar onde o coração não encontra morada, de cumprir tarefas quando tudo dentro da gente pede mudança. Há uma espécie de violência silenciosa em passar os dias fazendo o necessário quando, secretamente, tudo o que se deseja é sentir que existe alguma coisa pela qual vale a pena acordar com entusiasmo.
E eu tenho sentido falta de perspectiva. Não necessariamente porque acredito que nada possa mudar, mas porque, ultimamente, não consigo enxergar de onde virá a mudança. A minha realidade parece apertada, precária, cansativa. Há coisas que já não combinam comigo, lugares onde minha alma parece sempre estar de passagem, enquanto alguma parte de mim insiste em dizer que eu deveria estar em outro lugar. Talvez mais perto das minhas raízes. Talvez em uma cidade onde eu possa respirar sem precisar me explicar tanto. Talvez numa vida que ainda não conheço, mas que, de alguma maneira, já comecei a sentir saudade.
Tenho vontade de ir embora sem que isso signifique fugir. Existe uma diferença enorme entre fugir de uma vida e partir em direção a outra. E talvez eu esteja justamente nesse intervalo: cansada demais para continuar como estou, mas esperançosa demais para acreditar que este é o meu destino definitivo. Quero voltar para perto daquilo que me lembra quem eu sou. Quero uma casa que tenha silêncio suficiente para ouvir meus próprios pensamentos. Quero ruas que me sejam familiares, árvores, gente que tenha história comigo, pequenos afetos cotidianos. Quero a sensação de pertencer a algum lugar novamente.
Também sinto falta de vínculos. Daqueles que não precisam ser explicados, que oferecem abrigo antes mesmo que a gente peça. Tenho percebido como é difícil atravessar determinadas fases da vida quando não existe uma mão emocional para segurar a nossa. Quando não há colo, conversa, presença, alguém que perceba o peso por trás de um “estou bem”. A independência é bonita até o momento em que percebemos que fomos ensinados a carregar tudo sozinhos. E talvez eu esteja cansada não de ser forte, mas de precisar ser forte o tempo inteiro.
Há sentimentos que continuam aqui, mesmo quando eu gostaria de colocá-los em uma caixa e esquecê-los em algum lugar. Algumas ausências, algumas frustrações, algumas perguntas que não tiveram resposta. A vontade de ser escolhida, de ser cuidada, de construir alguma coisa com alguém. Porque, apesar de tudo o que aprendi sobre independência, ainda existe em mim uma mulher que quer amor. Não como salvação, nem como preenchimento de um vazio, mas como encontro. Como presença. Como alguém que também queira construir, dividir o peso dos dias, comemorar as pequenas coisas, conhecer meus silêncios e permanecer.
E talvez seja justamente isso que mais doa: saber que ainda tenho tanto amor para oferecer enquanto atravesso uma fase em que me sinto tão pouco amparada. É como possuir uma casa linda e permanecer do lado de fora, sem encontrar a chave. Eu sei que existe beleza em mim. Sei das coisas que ainda quero conhecer, das versões minhas que ainda não nasceram, das viagens que ainda não fiz, das manhãs que ainda não vivi, das pessoas que ainda não conheci. Sei que existe uma mulher inteira esperando por uma vida que faça sentido para ela. Só não sei, agora, quanto tempo ainda preciso caminhar até encontrá-la.
Talvez o esgotamento seja, às vezes, uma carta que o corpo escreve quando a alma já tentou falar de todas as outras maneiras. E eu quero acreditar que, apesar do cansaço, ainda existe caminho. Que voltar às minhas raízes não será voltar para trás, mas voltar para mim. Que existe uma vida menos apertada esperando em algum lugar. E que, mesmo depois de tantos dias em que me senti vazia, ainda há uma coisa que não conseguiram tirar de mim: a certeza silenciosa de que eu nasci para viver muito mais do que isso.
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