Cartas aos meus futuros filhos que eu talvez nunca terei.
Não sei se algum dia vocês vão existir.
Talvez um dia vocês estejam sentados diante de mim, adultos, lendo esta carta e rindo quando eu contar que houve uma época em que eu tinha medo de nunca conhecer vocês.
Ou talvez vocês nunca leiam isto.
Talvez vocês sejam apenas uma possibilidade que existiu na minha imaginação — dois, um, nenhum. Não sei. A vida nunca me ensinou a trabalhar com certezas.
Mas, se um dia vocês existirem, quero que saibam uma coisa sobre a mulher que eu fui antes de ser mãe de vocês: eu demorei muito para aceitar que minha vida amorosa não tinha sido aquilo que eu sonhei.
E não foi uma aceitação bonita. Foi dolorosa. Humilhante. Solitária. Durante muito tempo, eu olhei para as histórias que vivi e me perguntei o que havia de errado comigo.
Talvez vocês nunca entendam completamente o que é olhar para trás e perceber que, todas as vezes em que você tentou amar alguém, terminou com a sensação de que não tinha sido escolhida.
Antes de tudo, houve um quase. Depois, outro quase.
E talvez tenha sido justamente aí que começou a minha longa história de esperar por pessoas que nunca chegaram inteiramente até mim.
Houve o quase da escola. E depois houve o meu primeiro amor à distância, um amor que existia em outra cidade e que, para mim, parecia grande o suficiente para justificar todos os quilômetros entre nós.
Eu queria fazer dar certo. Queria encontrar um jeito. Queria transformar distância em ponte e sentimento em futuro.
Durante anos, eu tentei entender como alguém que eu amava tanto podia não enxergar em mim potencial para ser sua namorada.
Ele me colocou naquele lugar confortável e cruel da amizade colorida. Eu queria amor. Ele me deu alguns beijos. Eu queria um relacionamento. Ele queria as partes boas de um relacionamento sem precisar ser meu namorado.
Hoje existe uma palavra para isso: ficante.
Naquela época, eu só sabia que doía.
Eu não entendia como alguém podia gostar do meu corpo, da minha companhia, dos meus beijos e ainda assim não me escolher.
E talvez essa tenha sido uma das primeiras vezes em que confundi ser desejada com ser amada.
Depois veio meu primeiro namoro.
Foi quase um ano tentando construir um casal onde parecia não existir um casal. Ele parecia estar comigo como quem cumpre uma obrigação.
Não havia aquela intimidade que eu imaginava que namorados tinham. Éramos quase dois amigos distantes que, por alguma razão, carregavam o título de namorado e namorada.
Em quase um ano, nos beijamos duas vezes.
Duas.
Eu escalava uma muralha para tentar entrar no mundo daquela pessoa, enquanto ela parecia passar a vida aumentando os tijolos.
Foi o primeiro homem que conheceu meus pais. E foi também o primeiro homem sobre quem minha mãe olhou para mim e disse que aquilo não daria certo.
Ela dizia que ele não me dava atenção. Eu não queria acreditar. Talvez porque, quando a gente quer muito que uma história seja a nossa história, começa a negociar com os próprios olhos.
Depois veio aquele que, por muito tempo, considerei o terror da minha vida.
Com ele, aconteceu tudo o que eu jamais imaginei que pudesse acontecer comigo. Humilhação. Traição. Dor. Coisas que eu não sabia que alguém poderia fazer com outra pessoa que dizia amar.
E talvez tenha sido ainda mais difícil porque, naquele momento, eu sentia que minha própria família não acreditava em mim enquanto ele parecia ser a pessoa certa aos olhos dos outros.
Eu me sentia sozinha dentro de uma história que já era difícil demais para carregar. Foi um pesadelo. E eu sobrevivi.
Depois veio um amor de viagem.
Aqueles amores que parecem nascer com uma beleza própria porque começam longe da rotina, em algum lugar onde tudo parece possível.
Eu achei que, pelo menos dessa vez, existiria um vínculo. Que talvez aquela história pudesse finalmente ganhar nome.
Outro amor à distância. E, novamente, nada.
Ele desapareceu da minha vida sem explicações. Dessa vez, a humilhação foi menor, mas o vazio era parecido.
Eu continuava conhecendo a sensação de alguém ir embora sem sequer me dar a chance de entender por quê.
Depois apareceu outro.
No dia em que conheci a família dele, descobri que ele não queria nada sério comigo. Imaginem isso.
Eu estava entrando pela porta da família de alguém enquanto descobria que não existia uma porta para mim na vida daquela pessoa.
Mais uma vez, eu estava no lugar confortável para ele e doloroso para mim. Mais uma amizade colorida.
Mais um homem querendo as vantagens de um namoro sem assumir o compromisso de ser meu namorado. E eu sofri. Muito.
Porque cada uma dessas histórias parecia acrescentar uma nova camada à mesma pergunta: “Por que eu nunca sou escolhida?”
Até que chegou o relacionamento que duraria seis anos.
E talvez essa seja a parte mais contraditória da minha história. Porque eu não queria ninguém. Eu tinha medo. Depois de tudo o que havia vivido, eu não confiava mais no amor.
E, para ser sincera, eu nem achava aquele homem atraente. Ele não era o tipo de pessoa que eu tinha imaginado para mim. Mas havia alguma coisa familiar.
Abrigo. Colo. A sensação de que, finalmente, alguém estava olhando para mim.
Eu estava tão acostumada a tentar chamar a atenção de pessoas que não me enxergavam que, quando alguém me deu atenção, foco e presença, eu cedi.
Eu aprendi a gostar. Talvez essa tenha sido uma das coisas mais estranhas que já fiz.
Aprender a gostar de alguém sem sentir, no começo, aquela atração que eu sempre imaginei que sentiria.
Eu pensei que talvez amor pudesse nascer assim. Da segurança. Do hábito. Do colo.
E durante muito tempo, tentei fazer aquela história ser suficiente. Foram seis anos.
Seis anos é tempo suficiente para alguém se tornar parte da arquitetura da sua vida.
E, ainda assim, no final, ele fez coisas que destruíram justamente aquilo que eu mais procurava quando entrei naquela relação: segurança.
Vieram as traições — algumas que eu soube, outras que até hoje não sei se aconteceram.
Vieram as humilhações. Vieram palavras escolhidas para ferir. Vieram violências psicológicas que foram corroendo minha autoestima pouco a pouco.
Ele me disse coisas que pareciam cuidadosamente escolhidas para me fazer acreditar que eu era menos bonita, menos interessante, menos desejável, menos tudo.
E a família dele também se tornou parte daquele pesadelo. Fui perseguida. Fui humilhada. Fui colocada em situações que jamais imaginei viver.
Até que um dia, depois de seis anos, morando junto com aquela pessoa, fui deixada com um bilhete. Um bilhete.
Foi assim que terminou uma história de seis anos da minha vida. Eu não aguentei a humilhação. Peguei o que consegui carregar e fui embora. E, talvez pela primeira vez, entendi que ir embora também podia ser uma forma de me escolher.
Depois disso, eu deveria ter aprendido. Mas apareceu outro. Mais um homem que não quis me assumir. Mais um que me colocou no lugar de ficante enquanto recebia tudo aquilo que fazia um namoro parecer um namoro.
Companhia. Carinho. Intimidade. Presença. Atenção.
Tudo o que era bom para ele.
Mas, quando chegava a hora de me dar aquilo que eu queria, vinha um não.
Conhecer a família? Não.
Dar um nome à relação?
Não.
Transformar aquilo em alguma coisa concreta?
Não.
E isso durou dois anos. Dois anos.
Dois anos sendo iludida, esperando, acreditando, tentando entender, criando esperança e depois recolhendo os pedaços dela.
Dois anos de uma relação que tinha quase todas as responsabilidades emocionais de um namoro, mas nenhum dos direitos de ser chamada de namoro.
Até que eu me cansei. E talvez vocês estejam se perguntando por que eu estou contando tudo isso.
Porque, se vocês existirem, talvez um dia eu queira que entendam por que sua mãe teve tanto medo de amar.
Não foi porque ela não acreditava no amor. Foi porque ela acreditou nele muitas vezes. Acreditei quando eradolescente. Acreditei à distância. Acreditei em viagens. Acreditei em namoros. Acreditei em promessas. Acreditei em pessoas.
Acreditei que, se eu fosse boa o suficiente, bonita o suficiente, paciente o suficiente, carinhosa o suficiente, alguém finalmente olharia para mim e diria:
“É você.”
Mas essa frase nunca veio da forma como eu esperava. E então eu cheguei aos trinta.
E, pela primeira vez, comecei a olhar para a minha vida e sentir medo do tempo.
Olho ao redor e vejo pessoas namorando, casando, tendo filhos.
Vejo famílias sendo construídas enquanto a minha parece uma casa que nunca começou a ser levantada.
E existe uma pergunta que eu tenho vergonha de admitir que me assusta:
“E se eu nunca tiver vocês?”
E existe outra ainda pior:
“E se eu envelhecer sozinha?”
Às vezes imagino uma Júlia muito velha, sentada em algum lugar, olhando para uma vida inteira e pensando que talvez tenha perdido a oportunidade de construir aquilo que sempre desejou.
Uma casa. Um marido. Filhos. Uma família.
Vocês.
Talvez seja por isso que essa possibilidade me doa tanto. Porque eu não tenho medo apenas de ficar solteira.
Tenho medo de nunca ser escolhida. Tenho medo de nunca ser amada da maneira como eu sempre quis amar.
Tenho medo de que todas aquelas rejeições tenham sido uma espécie de ensaio para uma vida inteira de solidão.
Mas, se vocês existirem, quero que saibam que houve um momento em que eu pensei exatamente isso.
E, mesmo assim, continuei.
Talvez vocês sejam a prova de que a história não estava terminada quando eu achei que estava. Talvez não. Talvez vocês nunca existam.
E eu ainda estou aprendendo a aceitar que essa também é uma possibilidade da vida.
Mas quero que saibam que, se eu nunca for mãe de vocês, isso não significa que a minha vida terá sido vazia.
Eu fui uma mulher antes de ser mãe. Eu amei. Eu sofri. Eu viajei. Eu recomecei. Eu ri. Eu chorei. Eu tive medo.
Eu fui embora quando precisei.
E, principalmente, eu aprendi — muito tarde, talvez — que ser escolhida por alguém não poderia ser a única medida do meu valor.
Se vocês existirem, talvez um dia eu conte essa história olhando para vocês e pense:
“Meu Deus, eu tinha tanto medo de vocês nunca chegarem.”
E talvez vocês estejam ali, reclamando que eu contei a mesma história pela centésima vez.
Ou talvez eu esteja sozinha. Mas, se estiver, espero ter aprendido a não chamar isso de fracasso. Porque uma mulher não fracassa por não ter sido escolhida por um homem.
E eu não quero que vocês cresçam acreditando nisso. Quero que vocês saibam que amor não deve ser uma guerra pela atenção de alguém. Que carinho não deve ser uma recompensa. Que compromisso não deve ser implorado.
Que ninguém deveria precisar escalar uma muralha para entrar na vida de quem diz amá-lo.
E, se um dia vocês amarem alguém, espero que nunca façam essa pessoa passar anos perguntando se ela é importante para vocês.
Espero que vocês tenham coragem de dizer:
“Eu quero você.”
E que tenham maturidade para dizer também:
“Eu não posso te oferecer isso.”
Porque, às vezes, a verdade dói menos do que dois anos de esperança.
E se, por alguma ironia bonita da vida, vocês realmente existirem e estiverem lendo isto agora, talvez eu queira que vocês saibam de uma última coisa.
Antes de vocês, existiu uma mulher que passou muitos anos querendo ser escolhida.
E um dia ela cansou.
Não de amar.
Cansou de implorar para ser amada.
Então ela começou, devagar, a escolher a si mesma. Foi assim que eu cheguei até vocês.
Ou foi assim que cheguei até mim. Talvez as duas coisas sejam a mesma história.
Com amor,
Mamãe
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