Luzes da cidade.
A música terminou enquanto eu ainda segurava a taça de vinho. Por alguns segundos, ficou apenas o silêncio do apartamento. Então a playlist escolheu outra música.
Bad Dreams, de Teddy Swims.
Soltei uma risadinha.
— Ah, não...
A música começou. Era quase engraçado demais. Depois de tudo o que eu tinha passado naquele dia, aquela playlist parecia determinada a transformar uma noite perfeitamente normal em alguma espécie de provocação pessoal. Deixei a música tocar por alguns segundos. Depois veio Lose Control.
Foi quando eu ri de verdade.
— Tá bom. Já entendi.
Peguei o celular e parei a música. O vinho já começava a fazer efeito. Eu não tinha o hábito de beber. Duas taças eram suficientes para deixar meu corpo mais leve, a cabeça um pouco enevoada e aquela sensação de relaxamento que eu raramente permitia a mim mesma. Deixei a taça na cozinha e fui para o quarto.
Meu apartamento estava silencioso. A luz amarela que costumava deixar acesa à noite iluminava suavemente o ambiente. Caminhei até a escrivaninha e desliguei as luzes RGB de tudo. A temática rosa e branca de todo o meu computador estava colorida com as luzes. O monitor. O teclado. O gabinete transparente de acrílico, que cintilava cores e enfeites, iluminado. A cadeira gamer. Tudo ficou escuro.
Na estante acima da mesa gamer do computador, meus cadernos, agendas, livros e diários ficaram mergulhados na penumbra. Ali estavam minhas anotações, ideias, frases soltas e coisas que eu escrevia quando precisava colocar alguma coisa para fora da cabeça, além dos livros que eu mais utilizava no dia a dia. Do outro lado do quarto ficava minha grande estante de livros.
Dezoito prateleiras. Seis, seis e seis. Arrumadas uma do lado da outra, três estantes moduladas.
Livros de ficção, romances, desenvolvimento pessoal, histórias que eu tinha lido uma vez e livros que eu relia sempre que precisava fugir um pouco da realidade. Ao lado dela, a janela do quarto. Embaixo, um pufe longo, como um divã, que eu havia colocado ali justamente para sentar e ler enquanto olhava para a rua. Abri a janela. A brisa da noite entrou imediatamente. Fresca. Suave. Movendo levemente a cortina.
Deixei apenas a pequena luz azul da cabeceira acesa. Era suficiente. O quarto ganhou aquela tonalidade azulada e tranquila que fazia tudo parecer mais distante. Liguei o umidificador. Poucos segundos depois, o cheiro de lavanda começou a preencher o ambiente. Respirei fundo.
— Alexa, programe um alarme para oito horas da manhã.
— Alarme programado para oito horas.
— Obrigada.
Coloquei o celular sobre a mesa de cabeceira. Depois me deitei. Puxei o lençol até a altura das coxas, deixei os pés descobertos e me virei de lado, colocando o travesseiro entre as pernas.
Era assim que eu conseguia dormir melhor. Fechei os olhos. Precisava descansar. Estava de robe bordô de seda com renda na borda, cabelos soltos. Já havia passado óleo, hidratante, feito skin care coreana, passando hidratante labial e me sentia extremamente cheirosa e confortável, após passar meu body splash de cereja. No dia seguinte eu acordaria cedo, faria algum exercício, tomaria café e começaria a organizar meu trabalho.
Havia coisas para resolver, textos para entregar, campanhas para revisar. Uma semana inteira esperando por mim. Então pensei no trabalho, depois na palestra, depois no almoço, depois em qualquer coisa que não fosse... Elian. Abri os olhos.
— Não.
Virei para o outro lado. A brisa continuava entrando pela janela. O cheiro de lavanda deixava minha respiração mais lenta. Fechei os olhos novamente. Pensei em Porto de Auria, no mar, na Casa Maré, na conversa com minhas amigas, no meu date perfeito. Uma marina iluminada. Uma mesa perto da água. Vinho. Uma conversa sem pressa. Alguém prestando atenção. Sorri involuntariamente.
E então pensei nele. Mais uma vez. Elian. A voz. O sorriso. Aquele olhar. O abraço. O toque. Os olhos fechando por um instante quando minha mão encontrou seu rosto. Eu tentei afastar a lembrança. Mas o sono já começava a me levar. Os pensamentos ficaram mais lentos. As imagens, menos nítidas. O quarto desapareceu aos poucos. E, antes que eu percebesse, eu estava sonhando.
No sonho, a noite tinha outra textura. Tudo parecia mais silencioso. Mais íntimo. Eu estava em algum lugar que não reconhecia completamente. Depois, percebi. Era a varanda do meu prédio, parecia a sala de estar do meu studio, só que a varanda parecia maior, com a porta de vidro aberta atrás de mim.
A noite havia tomado Porto de Auria. Ao longe, o mar era quase uma faixa escura sob o céu, pontilhado por pequenas luzes que se moviam lentamente na distância - navios cargueiros atravessando a costa, tão distantes que pareciam estrelas flutuando sobre a água. A brisa entrava pela varanda e movimentava meu cabelo. Luzes distantes refletidas na superfície escura.
O ar era quente, mas uma brisa atravessava minha pele. E de repente, fito uma presença do meu lado. Eu estava diante dele. Elian. Dessa vez, não havia palestra. Não havia pessoas ao redor. Não havia outras vozes. Não havia nada entre nós além daquela distância curta demais para parecer casual. Ele estava recostado levemente na parede da varanda, logo depois da porta de vidro que separava a sala de estar da sacada. Suas pernas estavam cruzadas e ele segurava um braço na frente do outro, em postura de observação, me fitava de um jeito diferente. Não era o olhar profissional da reunião. Nem o sorriso educado do evento. Era um olhar demorado. Atento.
Como se estivesse tentando descobrir o que eu faria se ele simplesmente permanecesse ali. Eu não sabia o que fazer. Então sorri. Ele também. Ele descruzou as pernas, passou uma mão na outra e deu um passo. Eu não me afastei, apesar do nervosismo. Ele deu outro. A distância diminuiu. Eu conseguia sentir o calor dele antes mesmo de tocá-lo. Dentro do studio, a música ambiente da minha alexa tocava Pillowtalk do Zayn e dava pra escutar perfeitamente.
— Você sempre pensa demais? — ele perguntou. A voz baixa, calma.
— Talvez.
— Eu percebi.
— E você sempre observa tanto?
Ele sorriu.
— Só quando alguma coisa me interessa.
Meu coração acelerou. Aproximei-me. Minha mão encontrou o rosto dele novamente. Ele fechou os olhos sob meu toque. E aquele pequeno gesto me atravessou. Como se, no sonho, eu finalmente tivesse a resposta para a pergunta que havia levado comigo para casa.
Ele gostava daquele toque. Quando abriu os olhos, estava ainda mais perto. O mundo ao redor parecia ter desaparecido. Só existia aquele espaço entre nós. A respiração dele. A minha. O silêncio. A expectativa. Ele levou uma das mãos até a minha cintura. Devagar. Como se me desse tempo para recuar. Eu não recuei. Pelo contrário, aproximei-me mais. E, naquele instante, compreendi que algumas fantasias não começavam com o que acontecia.
Começavam com a espera, com a possibilidade, com a sensação de que alguma coisa estava prestes a acontecer e que nenhum dos dois tinha pressa de impedir. Ele sorriu. Eu também. E então ele se inclinou ainda mais pra perto, me olhando de cima pra baixo. O resto do mundo desapareceu e as minhas pernas começaram a ficar dormentes, meu coração acelerado freneticamente. Como quem sabia disso, ele retirou devagar uma das mãos que estava repousada em minha cintura e voltou a me analisar.
Eu estava diante dele. E ele estava olhando para mim. Não de maneira apressada. Não como alguém que simplesmente observa. Era como se estivesse tentando decorar cada detalhe. Meu rosto. Meu cabelo. Minha expressão. A maneira como eu permanecia parada diante dele. Mesmo eu quase caindo das pernas de tensão sexual. Eu não me sentia intimidada. Pelo contrário, havia alguma coisa profundamente envolvente naquele olhar.
Eu gostava de ser observada por ele. Gostava daquela atenção silenciosa.
— Você sempre olha assim? — perguntei.
Ele continuou me encarando por alguns segundos antes de responder.
— Assim como?
— Como se estivesse tentando descobrir alguma coisa.
Um pequeno sorriso apareceu em seus lábios.
— Talvez eu esteja.
— E descobriu?
Ele tirou uma das mãos do bolso.
— Ainda não.
Ele estava vestido como eu o tinha visto naquela tarde.
Calça social escura, perfeitamente ajustada, uma camisa azul-marinho de tecido fino, os primeiros botões abertos no peito. O cabelo em um tom loiro escuro, levemente dourados, estava penteado para o lado, impecável apesar da noite. O pequeno bigode lhe dava aquele ar charmoso que eu já havia reparado antes.
Mas os olhos... Os olhos eram diferentes. Azuis sob a iluminação suave da varanda. Quase luminosos. Ele encostou o rosto no meu e me beijou a bochecha direita, seguiu beijando a lateral do meu rosto, vagarosamente, quase um crime. A distância entre nós diminuiu e ele parou com os beijos.
— E o que você está tentando descobrir? — perguntei.
Ele baixou os olhos por um instante. Depois voltou a me encarar.
— Você.
Meu coração acelerou.
— Eu sou tão complicada assim?
— Não.
Ele sorriu.
— Acho que esse é o problema.
Antes que eu pudesse responder, a mão dele encontrou minha cintura novamente. Sem pressa. Firme. Como se tivesse certeza de que eu não iria embora. Senti o calor da palma através do tecido da minha roupa. Eu estava exatamente com a roupa que deitei, o robe bordô com renda nas pontas, parecia um vestido curto e ele me fitava como quem aprecia a vista. Ele me puxou apenas o suficiente para diminuir ainda mais a distância entre nossos lábios.
Seu olhar desceu lentamente. Dos meus olhos para a minha boca carnuda. E permaneceu ali. Um sorriso gostoso surgiu em seus lábios. Eu sabia exatamente o que aquele olhar significava. Minha respiração mudou, lambi e mordisquei o meu lábio inferior enquanto encarava os lábios dele. Minha mão subiu até o peito dele, primeiro sobre a camisa, sentindo o tecido sob meus dedos. Acariciei o peitoral esquerdo. Depois, num gesto lento, deslizei a mão pela abertura dos botões, sentindo o calor da pele sob a ponta dos dedos e passando levemente as unhas sob o peito dele.
Ele inspirou profundamente. Os olhos voltaram aos meus. Dessa vez, havia menos distância neles, mais vontade. Ele segurou minha nuca e me beijou. Aqueles lábios rosados e levemente carnudos, nossa. O beijo começou devagar, quase cuidadoso. Como se estivéssemos descobrindo um ao outro pela primeira vez. Mas não permaneceu assim. A intensidade cresceu aos poucos, sem pressa, até que nossas línguas se encontraram e se entrelaçaram num ritmo frenético, gostoso demais, perfeitamente encaixadas. O beijo se tornou profundo, demorado, carregado daquela tensão que parecia ter sido acumulada desde o primeiro olhar.
Eu me aproximei ainda mais. Ele me envolveu pela cintura, o braço firme ao redor das minhas costas, mantendo nossos corpos próximos. Sua outra mão permaneceu na minha nuca. O gesto tinha força, mas também cuidado. Era exatamente essa contradição que me desarmava. Intensidade sem brutalidade. Vontade sem pressa.
Ele interrompeu o beijo por um instante. Nossas testas quase se tocaram. Respiramos o mesmo ar. Ele olhou para mim. Depois para a minha boca já em um tom de vermelho natural sensual e úmida do nosso beijo. E voltou a me beijar, sua língua voltou a explorar a minha boca de forma irretocável, impreensível, intensa. Dessa vez, um beijo mais demorado, mais seguro. Minha mão deslizou novamente pelo peito dele, enquanto a outra encontrou seu ombro. O vento continuava entrando pela varanda. As luzes distantes dos navios continuavam se movendo no mar. Mas nada parecia existir além daquele pequeno espaço entre nós.
Ele afastou delicadamente meus cabelos soltos do rosto, passando os fios para trás da minha cabeça. Seus dedos demoraram um instante na minha nuca. Eu sorri contra seus lábios. Ele percebeu.
— O que foi? — perguntou, ainda perto demais.
— Nada.
— Você está sorrindo.
— Talvez eu esteja gostando.
Ele sorriu também.
— Talvez?
Eu não respondi. Apenas o puxei novamente para perto. E o beijo continuou. Longo. Quente. Intenso. Daqueles que fazem o tempo perder completamente o sentido. Sua mão na minha nuca pressionou um pouco mais nossos lábios um contra o outro, de forma rítmica e sensual demais para não continuarmos avançando os desejos contidos ali. Fiz como quem vai afastar o meu corpo do dele para pararmos, mas ele sentiu e pressionou o quadril contra o meu corpo, fazendo eu sentir ele completamente. Ali, senti o abdômen definido, as coxas firmes como pedras e sua excitação, claramente evidente entre nós.
Seu corpo era um pecado junto ao meu, parecia não ter resistência um ao outro. Era como peças se encaixando e de repente, o mundo fazia sentido dali em diante. Nossos corpos vibravam um pelo outro, em arrepios, excitações, calor e a brisa batendo em nossos cabelos enquanto a varanda desaparecia e eu me sentia flutuando naquele instante.
E, em algum lugar dentro daquele sonho, eu tive a sensação absurda de que já conhecia aquela cena. Como se aquela noite tivesse sido imaginada muito antes de acontecer. Como se o meu próprio desejo tivesse criado um lugar onde, finalmente, eu não precisava esconder o quanto queria estar ali.
E então, seus lábios se afastam lentamente dos meus e ele sussurrou meu nome .
— Jullia...
Abri os olhos. Por um segundo, ainda estava na varanda. Ainda sentia a mão dele na minha cintura. Ainda ouvia sua voz. Mas alguma coisa começou a desaparecer. A varanda. As luzes do mar. O rosto dele. Tudo ficou distante. E eu acordei.
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