Em todo lugar.

Domingo sempre teve um ritmo diferente. Talvez porque fosse o único dia em que eu não sentia necessidade de correr.
Acordei sem pressa, ainda com a lembrança do sonho da noite anterior escondida em algum canto da minha cabeça. Não fiz questão de procurá-la. Algumas coisas eram melhores quando permaneciam exatamente onde deveriam estar: no território dos sonhos.

Abri as cortinas e deixei a luz da manhã invadir o apartamento, eram 9 da manhã. 
Porto de Auria estava bonita.
O céu estava limpo, o mar aparecia ao longe entre os prédios e algumas aves cruzavam o céu em pequenos grupos.
Eu gosto de observar isso.
Talvez fosse uma das coisas que mais me acalmam: lembrar que existe um mundo inteiro acontecendo sem depender de mim.
Preparei meu café, reguei algumas das minhas plantas e passei alguns minutos observando uma delas, que havia começado a nascer de um jeito diferente do que eu esperava.

Eu gosto desse tipo de coisa.
Plantas tinham uma lógica própria: 
Você cuida, observa, tem paciência.
Não pode obrigá-las a florescer antes da hora. Talvez por isso eu goste tanto delas.
Depois do café, estendi meu tapete no meio da sala. Coloquei uma playlist tranquila de músicas xamânicas e cantos da floresta e comecei minha prática de yoga.
Respirei fundo. Alonguei os braços. Fechei os olhos. Por alguns minutos, minha cabeça ficou completamente vazia. Até que uma lembrança apareceu. Um par de olhos azuis. Abri os olhos.
— Não.
Ri sozinha. Não era possível. Eu não estava apaixonada. Nem perto disso. Eu tenho trinta anos. Já tinha vivido o suficiente para saber que uma atração não era uma promessa, um olhar não era uma declaração e um homem bonito não era necessariamente um homem que valia a pena conhecer. 

Eu já tinha aprendido a diferença entre desejar alguém e querer alguém na minha vida. Eram coisas completamente diferentes.
Voltei à posição. Inspirei. Expirei. Pronto. Muito melhor.
Depois da yoga, tomei banho e comecei a organizar minha semana.
Segunda-feira seria na filial de Vila Serena.
Precisava finalizar alguns documentos, revisar duas campanhas e começar a produção de uma sequência de conteúdos.
Na terça, teria reuniões remotas.
Na quarta, voltaria à sede da empresa aqui em Porto de Auria. 
Também precisava separar alguns materiais para uma viagem que queria fazer nas semanas seguintes. Minha vida estava cheia.
E eu gosto disso. Gostoade ter planos que não dependessem de outra pessoa.
Gosto de poder acordar e decidir que queria conhecer uma cidade nova.

Gosto de viajar. De fotografar lugares. De cuidar das minhas plantas. De observar aves, principalmente exóticas, passava horas observando-as no aviário do zoológico local. 
De passar horas lendo sobre alguma espécie que havia despertado minha curiosidade.
De mergulhar em assuntos que não tinham absolutamente nada a ver com trabalho.

Botânica. Astronomia. Livros. Música. Eu tinha construído uma vida que me pertencia.
E não pretendia entregar as chaves dela para qualquer pessoa. Muito menos para um homem que eu havia conhecido havia menos de vinte e quatro horas. Elian era interessante. Bonito. Inteligente. Tinha uma presença difícil de ignorar. Tudo isso era verdade. Mas também era verdade que eu não sabia quase nada sobre ele. E eu não tinha pressa.

Depois de tantas decepções, eu tenho aprendido a não apostar caro em pessoas que ainda não tinham provado que merecem o investimento. Amor pode ser maravilhoso. Mas paz é indispensável, em qualquer época da vida. Inclusive é o que tenho priorizado nos últimos dois anos. 

No meio da tarde, me arrumei com o vestido que amo, amarelo em tons pastéis, com poás, e um detalhe que transpassa no pescoço, me sinto uma garora pariziense com ele. Escolhi a bolsa que amo, os sapatos que combinam, me maquiei e coloquei brinco de flores. Saí para resolver algumas coisas pela cidade.

Porto de Auria estava movimentada. Passei por uma cafeteria, entrei em uma livraria e depois parei em uma pequena loja de plantas que havia descoberto algumas semanas antes. Enquanto caminhava entre os vasos, ouvi uma funcionária comentar:
— Chegaram algumas espécies novas ontem.
Meus olhos imediatamente foram para uma bancada cheia de pequenas plantas.
— Posso ver?
— Claro.
Passei alguns minutos ali.
Toquei algumas folhas, li etiquetas, fiz perguntas.
Era o tipo de passeio que conseguia me fazer perder completamente a noção do tempo.
Quando saí da loja, carregava uma pequena planta nova.
Sorri.
— Mais uma. Balancei a cabeça enquanto caminhava. 
Meu apartamento já começava a parecer uma pequena floresta. E eu não tinha absolutamente nenhuma intenção de reclamar. Continuei andando. Em determinado momento, vi um homem alto atravessando a rua. Cabelo claro. Camisa azul-marinho. Por uma fração de segundo, meu cérebro fez a associação. Elian. Olhei novamente. Não era. E achei graça.
Não porque estivesse procurando por ele.
Eu não estava.
Era apenas aquela curiosidade involuntária e uma observação engraçada: quando pensamos demais em alguém ou em algo, o universo conspira para que pessoas e situações aconteçam de forma parecida, trazendo a lembrança.  Segui andando. Sem drama. Sem expectativa. Afinal, eu não precisava encontrar Elian, quem era ele afinal? Mais um rostinho bonito no meio da capital. Comum, aceitável. Nada diferente de tantos de beleza parecida. Um punhado deles fazia crossfit, nadava na baía final de semana, se inscrevia em corridas de rua e tinha algum hobby diferentão para postar no instagram. Afinal, sou copy, eu conheço muito bem a descrição de homens padrão. 

Se nossos caminhos se cruzassem novamente, ótimo. Se não, a vida continuaria exatamente como antes. E, sinceramente, eu gostava bastante da minha vida antes dele aparecer.

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