E já é segunda outra vez.
Na segunda-feira, voltei ao trabalho. Vila Serena ficava a pouco mais de uma hora de Porto de Auria e tinha um ritmo completamente diferente da cidade litorânea.
A filial da empresa era menor do que a sede, mas igualmente movimentada.
Assim que entrei, encontrei Marina na recepção.
— Bom dia, Jullia!
— Bom dia!
— Sobreviveu ao evento?
— Sobrevivi.
— Foi bom?
Parei por um segundo.
— Foi.
Ela sorriu.
— Essa pausa foi suspeita.
— Você também?
— Também o quê?
— Nada.
Passei pela recepção antes que ela pudesse continuar. Minha sala estava exatamente como eu havia deixado: notebook, cadernos, documentos, um visionboard (quadro dos sonhos) enorme colado na parede atrás da minha cadeira com todos as metas pra 2025, uma decoração estilo Paris, com colagens, fotos, momentos, nas paredes da sala.
Uma pilha de briefings esperando por mim.
Sentei. Abri o computador. E voltei a ser a pessoa que eu era antes de sábado.
Ou pelo menos tentei.
A primeira reunião foi sobre uma nova campanha.
— Precisamos de uma comunicação mais direta — disse Rafael, responsável pelo projeto.
— Mais direta ou mais emocional?
Ele me olhou.
— Qual a diferença?
— Direta fala com a cabeça. Emocional fala com aquilo que faz alguém agir.
Ele sorriu.
— Por isso contrataram você.
— Espero que tenham contratado também para pagar minhas contas.
A equipe riu. Começamos a trabalhar.
Passamos boa parte da manhã revisando documentos, ajustando posicionamento e discutindo os primeiros conceitos da campanha. Depois vieram os textos. Headlines. Legendas. E-mails. Páginas. Ufa!
Tudo precisava ter uma intenção.
Tudo precisava dizer alguma coisa.
No meio da tarde, comecei a escrever uma frase para uma campanha:
"As pessoas não compram apenas o que você oferece. Compram aquilo que acreditam que aquilo pode transformar."
Parei. Li novamente.
A frase me fez lembrar da conversa que eu havia tido com Elian. Não por causa dele, mas por causa do assunto. Desejos. Pessoas. Motivações.
O que fazia alguém escolher alguma coisa em meio a tantas possibilidades. Ele me fez refletir.
Sorri discretamente e continuei escrevendo.
— Jullia?
Levantei os olhos.
Rafael estava na porta.
— Tudo certo?
— Tudo.
— Você ficou olhando para a tela por uns trinta segundos.
— Estava pensando.
— Em quê?
Olhei para a frase.
— Em pessoas.
Ele riu.
— Perigoso.
— Bastante.
Voltei ao computador. E não pensei mais nisso. Quando terminei o trabalho, já estava escurecendo. Fechei o notebook. Organizei os documentos. Peguei minha bolsa. Antes de sair, passei pela janela da sala.
O céu estava começando a ganhar aquele azul profundo que sempre me fazia parar por alguns segundos. Eu gostava daquele horário.
Aquele intervalo entre o dia e a noite.
A primeira estrela apareceu. Depois outra.
Fiquei observando. Astronomia sempre teve esse efeito sobre mim. Era difícil olhar para o céu e continuar levando os próprios problemas tão a sério. Existia um universo inteiro acontecendo acima da minha cabeça.
E eu era apenas uma pequena parte dele.
Sorri. Peguei a bolsa e saí. No caminho para casa, pensei na semana. No trabalho.
Nas viagens que ainda queria fazer.
Nas plantas novas que precisava encontrar um lugar para colocar. Na lista de livros que queria ler. Nas coisas que ainda queria construir. Minha vida estava cheia. Não havia espaço para pressa. Muito menos para desespero.
E, ainda assim, quando parei em um sinal e olhei distraidamente para o outro lado da rua, uma pequena parte de mim pensou:
Será que eu vou encontrá-lo novamente?
Sorri da própria pergunta. Não era expectativa. Era curiosidade. Talvez um pouco de encanto. Uma tolice perfeitamente humana. E tudo bem.
Eu não precisava transformar aquilo em nada.
Não precisava decidir o que Elian significava.
Não precisava imaginar um futuro.
Se ele aparecesse novamente, eu saberia.
Se não aparecesse, eu continuaria vivendo.
Porque eu havia aprendido, depois de tantas histórias que terminaram mal, que a minha vida não começava quando alguém chegava.
Ela já estava acontecendo.
E eu gostava dela exatamente assim.
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