Entardeceu.
A tarde começou depois do almoço na Casa Maré, quando nós quatro atravessamos novamente as portas do centro de eventos de Porto de Auria. O local era bonito e agradável, tinha área verde, flores coloridas e aves nos topos das árvores. Tudo o que eu gosto em um lugar.
O movimento havia mudado. Se pela manhã o ambiente tinha sido dominado por palestras mais expositivas, a programação da tarde era muito mais dinâmica. Havia workshops, painéis, rodas de conversa e momentos interativos, com os participantes circulando entre diferentes espaços e discutindo estratégias em pequenos grupos.
A empresa estava aproveitando aquele momento para mostrar, de maneira muito mais concreta, aquilo que fazia. A Atria Growth era uma empresa de crescimento e marketing estratégico. Trabalhávamos com outras marcas e empresas que queriam crescer, mas não sabiam exatamente como transformar uma boa ideia em posicionamento, comunicação, audiência e, principalmente, vendas.
Havia estratégia de marca, marketing de conteúdo, campanhas digitais, aquisição de clientes, análise de dados, posicionamento e copywriting. Eu trabalhava como copywriter freelancer para a empresa. Meu trabalho era transformar estratégia em palavras. Campanhas. Anúncios. Páginas de venda. E-mails. Roteiros. Textos que precisavam fazer mais do que simplesmente informar. Precisavam fazer alguém parar, prestar atenção e sentir alguma coisa.
Era curioso pensar que, naquela manhã, eu tinha conversado justamente sobre isso com um homem que parecia ter prestado mais atenção em mim do que eu gostaria de admitir. Ou talvez eu estivesse apenas exagerando. Provavelmente estava. Durante um dos workshops, tentei me concentrar completamente na apresentação, anotei algumas ideias, participei de uma dinâmica. Ri com minhas amigas de uma situação que aconteceu durante uma das atividades. Por alguns minutos, consegui esquecer completamente o assunto. Até olhar para o palco. Elian estava em uma das laterais, conversando com outro sócio.
Ele não participava daquela apresentação, mas parecia acompanhar parte da discussão. Meu olhar parou nele por alguns segundos. Como se sentisse, ele levantou os olhos. Encontrou os meus. E sorriu. Desviei o olhar imediatamente. Isso está começando a ficar ridículo.
Voltei para minhas anotações. Não precisava transformar cada olhar em alguma coisa. Não precisava transformar um sorriso em um sinal. Era apenas um sorriso. E eu precisava me lembrar disso.
As horas seguintes passaram mais rápido do que eu esperava. Vieram outros painéis. Uma roda de conversa sobre crescimento. Uma apresentação com números e gráficos mostrando o aumento de vendas de alguns clientes. Cases de empresas que haviam chegado até nós com dificuldades de posicionamento e, depois de meses de estratégia, tinham conseguido aumentar consideravelmente sua presença no mercado. Em determinado momento, um dos executivos apresentou os resultados de uma campanha que havia começado com uma estratégia de conteúdo e terminado com um crescimento expressivo nas vendas.
Eu conhecia parte daquele projeto. Talvez fosse uma das coisas que eu mais gostava no meu trabalho: ver uma frase que tinha começado em uma tela em branco se transformar em algo que chegava a milhares de pessoas. No fim do último painel, o auditório foi tomado pelos aplausos. A programação oficial estava terminando. As pessoas começaram a se levantar, algumas tiravam fotos, outras trocavam cartões.
Algumas se aproximavam dos palestrantes para conversar. Os sócios permaneceram próximos à saída para cumprimentar os participantes antes que todos fossem embora. Foi quando minhas amigas olharam para mim.
Eu conhecia aquele olhar.
— Não.
Ana sorriu.
— A gente não falou nada.
— Mas eu conheço vocês.
— Então você já sabe.
— Não vou fazer isso.
— Fazer o quê?
— Não sei. Mas seja lá o que vocês estão planejando, não.
As três começaram a rir.
— Você vai cumprimentar o seu namorado.
— Ele não é meu namorado.
— Ainda.
— Meu Deus.
Lídia colocou a mão no meu ombro.
— Vai lá, Jullia. Seu homem está esperando.
— Ele não está esperando por mim.
— Está sim.
— Ele está cumprimentando todo mundo.
— Detalhes.
Balancei a cabeça, tentando esconder o sorriso.
— Vocês são completamente sem noção.
— E você está nervosa.
— Não estou.
— Está.
Olhei para a fila que começava a se formar. Elian estava ali, conversando com algumas pessoas. Sorrindo. Cumprimentando um participante depois do outro. Meu estômago deu uma pequena volta. Ridículo. Era apenas uma despedida. Eu já tinha conversado com ele. Não havia motivo algum para ficar nervosa.
— Vamos logo — falei.
Começamos a caminhar, a fila avançava lentamente. Cada pessoa parava por alguns segundos. Um aperto de mão, uma fotografia, uma despedida, um comentário sobre a palestra, nada demais. Até chegar a minha vez. Elian estava conversando com um dos participantes quando levantou os olhos.Ele me viu. E parou. Por um instante, pareceu reconhecer-me antes mesmo de eu chegar perto.
— Jullia.
Meu nome saiu naturalmente, como se ele já estivesse acostumado a dizê-lo.
— Oi!
Ele sorriu.
— A nossa copywriter.
Sorri.
— Finalmente lembrou de mim.
— Como eu esqueceria?
A frase veio tão naturalmente que quase pareceu uma brincadeira. Eu ri.
— Depois daquela conversa, acho que você ficou traumatizado com copy.
— Um pouco.
— Por quê?
— Agora vou pensar duas vezes antes de aprovar qualquer campanha.
— Isso é bom.
— Para você, talvez.
— Para a empresa.
— Não tenho tanta certeza.
Nós dois rimos. Havia pessoas esperando atrás de mim, mas, de alguma maneira, ele não parecia ter pressa.
— Gostei do que você falou hoje — disse ele. — Sobre as pessoas comprarem pelo mesmo motivo, mas desejarem coisas diferentes.
Pisquei. Ele lembrava.
— Você realmente prestou atenção.
— Eu presto atenção.
A resposta veio simples. Sem pose. Sem tentativa de impressionar. Eu sorri.
— Isso é uma qualidade rara.
— No seu trabalho, deve ser indispensável.
— É.
Houve um pequeno silêncio. Não desconfortável. Apenas aquele tipo de pausa em que duas pessoas parecem não ter certeza de quem deveria dizer a próxima coisa. Então eu sorri e me aproximei para me despedir. Minha mão subiu naturalmente até o rosto dele. Um gesto pequeno, delicado, quase instintivo.
Meus dedos tocaram sua face com suavidade e ele fechou os olhos. Por um segundo, talvez menos. Mas eu vi. Senti o instante. E fiquei intrigada.
Ele fechou os olhos.
Como se tivesse permitido que o toque permanecesse ali por mais tempo do que deveria. Ou talvez eu estivesse imaginando. Antes que pudesse pensar demais, ele abriu os olhos novamente. O olhar encontrou o meu. Ele se aproximou e deixou um beijo breve de cumprimento. Depois me abraçou. E foi aí que eu senti o calor do corpo dele. Não de uma maneira exagerada, apenas aquela percepção súbita de estar muito perto de alguém.
O perfume, o calor que atravessou o tecido das nossas roupas, a firmeza do abraço. Por alguns segundos, pareceu que todo o barulho ao redor havia diminuído. Meu corpo registrou aquela proximidade antes que minha cabeça pudesse racionalizá-la. Quando nos afastamos, nossos olhos se encontraram novamente. Ele sorriu.
— Até a próxima, Jullia.
— Até.
Eu me afastei. Caminhei de volta para minhas amigas tentando agir normalmente. As três estavam me esperando com expressões que diziam absolutamente tudo.
— Nem uma palavra — avisei.
Ana abriu um sorriso enorme.
— Eu não falei nada.
— Mas está pensando.
— Muito.
— Vocês são impossíveis.
Olhei para trás uma última vez. Elian já estava cumprimentando outra pessoa, como se nada tivesse acontecido. E talvez realmente não tivesse acontecido nada. Talvez aquele toque não tivesse significado absolutamente coisa alguma. Talvez ele tivesse fechado os olhos simplesmente por reflexo. Talvez o abraço tivesse sido apenas um abraço. Eu não sabia.
E, justamente por não saber, aquilo ficou ainda mais presente na minha cabeça.
No começo da noite, minhas amigas e eu nos despedimos. Cada uma seguiria para seu próprio lugar em Porto de Auria. Uma voltaria para o hotel, outra para a casa de parentes onde estava hospedada e a terceira tinha alugado um apartamento próximo ao centro. Eu, por outro lado, ainda ficaria mais alguns dias na cidade. Voltei sozinha para o meu pequeno estúdio.
Assim que entrei, deixei a bolsa sobre a bancada e tirei os sapatos. O silêncio do apartamento foi quase estranho depois de um dia inteiro cercada de pessoas. Tomei um banho demorado, troquei de roupa., prendi os cabelos. E fui para a cozinha. Não queria sair para jantar, queria alguma coisa simples. Preparei um macarrão com camarões, alho e ervas, coloquei uma taça de vinho ao lado do prato e sentei perto da janela. Porto de Auria estava diferente à noite. As luzes da cidade refletiam na água. A marina, que durante o dia parecia movimentada e ensolarada, agora tinha uma atmosfera mais silenciosa.
Peguei o celular e coloquei uma música no aleatório entre as minhas curtidas.
Wicked Game, de Chris Isaak. Quase ri sozinha.
— Perfeito — murmurei.
Não poderia ter escolhido uma música mais inconveniente. A melodia tomou o apartamento enquanto eu levava o garfo à boca. Tentei pensar no jantar, na palestra, no trabalho, nos projetos que precisaria terminar na semana seguinte. Não funcionou. Porque, inevitavelmente, minha memória voltou para a despedida. O olhar. O sorriso. A voz dizendo meu nome. A mão dele apertando a minha. O abraço. E aquele segundo. Aquele maldito segundo em que ele fechou os olhos quando toquei seu rosto.
Pousei o garfo. Tomei um gole de vinho. Será que ele sentiu alguma coisa? Balancei a cabeça.
— Para, Jullia.
Provavelmente não. Eu estava criando significado onde não havia. Era exatamente aquilo que ele havia dito sobre mim. Eu encontrava significado até no que as pessoas falavam sem pensar. Talvez estivesse fazendo a mesma coisa com os gestos. Mas, ainda assim... Eu lembrava perfeitamente da sensação. Do calor, da proximidade, da maneira como, por alguns segundos, aquele abraço pareceu diferente de qualquer outro abraço casual.
Olhei para a taça, depois para a janela. A música continuava tocando e eu sorri sem perceber. Era ridículo. Eu tinha conhecido aquele homem naquele mesmo dia. Conversado com ele duas vezes. Não sabia praticamente nada sobre sua vida. Não sabia se estava solteiro. Não sabia do que gostava. Não sabia nem sequer se ele tinha reparado em mim da mesma maneira que eu havia reparado nele.
E, ainda assim, ali estava eu. Sozinha no meu apartamento, com uma taça de vinho, macarrão com camarões e uma música que parecia ter sido escolhida especificamente para me provocar. Fechei os olhos por um instante. E a imagem dele apareceu novamente. O sorriso. Os olhos. A voz. E então aquele pequeno gesto. Os olhos fechando sob o meu toque.
Abri os olhos.
— Provavelmente não significou nada.
Bebi mais um gole de vinho. Fiquei alguns segundos em silêncio.
— Provavelmente.
E foi justamente o fato de eu precisar repetir aquela palavra que me fez perceber que, talvez, eu não acreditasse nela tanto quanto gostaria.
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