Entre Linhas.

 A palestra continuava, mas eu já não estava tão interessada no que acontecia no palco. Estava novamente do lado externo, observando os detalhes do evento. 

Ou, pelo menos, não somente no que acontecia no palco, mas do lado de fora também. Depois de descobrir quem ele era, comecei a perceber que Elian parecia conhecer praticamente todo mundo naquela sala. Não de uma maneira forçada. Ele não era o tipo de homem que precisava fazer questão de demonstrar sua posição. As pessoas simplesmente vinham até ele.
E ele as recebia com uma tranquilidade quase desconcertante. Conversava olhando nos olhos, ouvia até o fim antes de responder e, quando discordava de alguma coisa, não interrompia. Fazia uma pergunta, inclinava levemente a cabeça e deixava a outra pessoa terminar o raciocínio.

Era estranho.
Eu esperava que alguém naquela posição fosse mais... arrogante. Mas Elian parecia confortável demais consigo mesmo para precisar provar alguma coisa. Estava conversando com dois dos sócios quando ouvi alguém mencionar uma campanha que seria lançada nas semanas seguintes.

— A gente ainda precisa fechar a comunicação — disse um deles. — Principalmente a parte da campanha.

— A copy já está encaminhada — respondeu outra pessoa.

Foi quando alguém me viu do outro lado do espaço.

— Aliás, você ainda não conhece a Jullia, né?

Elian virou o rosto. E, dessa vez, ele não estava olhando para uma desconhecida no meio da multidão. Ele sabia quem eu era.

— Não — respondeu.

A pessoa fez um gesto para que eu me aproximasse.

— Ela é quem cuida da nossa copy.

Eu me aproximei tentando agir como se meu coração não tivesse acabado de acelerar por um motivo absolutamente ridículo.

— Oi! eu abri um sorriso e o cumprimentei. 

— Oi, Jullia. Ele sorriu de volta, olhando nos meus olhos. 

Meu nome na voz dele. Não sei por que isso pareceu tão diferente. Talvez porque agora eu tivesse uma voz para associar àquele rosto.

— Elian, prazer. 

Ele estendeu a mão.
Apertei. Foi um cumprimento perfeitamente normal. Rápido. Educado. E, ainda assim, fiquei alguns segundos consciente demais daquele contato.

— Então é você quem escreve tudo aquilo? — ele perguntou.

— Depende do que você considera “tudo aquilo”.

Ele sorriu.

— As campanhas. Os anúncios. Os textos que fazem a empresa parecer muito mais interessante do que talvez seja.

As pessoas ao redor riram. Eu também.

— Nesse caso, sim. Acho que uma parte da minha função é justamente essa.

— Então você é copywriter?

— Sou.

Ele pareceu genuinamente curioso.

— E o que exatamente um copywriter faz?

Antes que eu respondesse, alguém se adiantou:

— Ela é praticamente quem transforma tudo que a gente quer vender em alguma coisa que as pessoas realmente tenham vontade de comprar.

— Não é bem assim — falei, rindo.

Elian me olhou.

— Não?

— Eu diria que meu trabalho é fazer as pessoas sentirem alguma coisa antes de decidirem comprar.

Ele ficou em silêncio por um instante. Não parecia ter esperado aquela resposta.

— E você consegue?

Sorri.

— Quando o produto ajuda, fica mais fácil.

Ele riu baixo.

— Então você está dizendo que um bom texto não salva um produto ruim?

— Estou dizendo que eu prefiro não tentar.

A risada dele veio mais aberta dessa vez. E foi a primeira vez que percebi que o sorriso que eu havia visto de longe era ainda mais bonito quando provocado por alguma coisa que eu tinha dito.

— Justo — ele respondeu.

A conversa poderia ter terminado ali. Mas não terminou.

— E como você decide o que uma pessoa precisa ouvir? — perguntou.

A pergunta me pegou de surpresa.

— Depende de quem está ouvindo.

— Como assim?

— O mesmo produto pode precisar ser apresentado de cinco maneiras diferentes. Cinco pessoas podem desejar exatamente a mesma coisa por motivos completamente diferentes.

Ele me observava com atenção agora.

— Então você trabalha com comportamento.

Pensei por um segundo.

— Com palavras. O comportamento vem depois.

Ele sorriu de canto.

— Interessante.

Havia alguma coisa no jeito como ele dizia certas palavras. Não era o tom. Era a atenção. Ele realmente estava ouvindo. Não parecia apenas esperando a vez de falar.

— E você gosta? — perguntou.

— De escrever?

— Do trabalho.

Pensei antes de responder.

— Gosto. Principalmente quando tenho liberdade para criar. A parte mais difícil é quando muita gente quer dar opinião sobre uma frase que levou duas horas para você construir.

Ele riu.

— Imagino.

— Você não faz isso?

— Dar opinião?

— Sobre coisas que não entende.

Ele levantou uma sobrancelha.

— Às vezes.

— Então você é um desses.

— Talvez.

Eu ri.

E, naquele momento, percebi que tinha esquecido completamente que estávamos em um espaço cheio de pessoas. Era uma conversa simples. Nada demais. Ele não estava flertando comigo. Eu também não estava tentando impressioná-lo. Ainda assim, havia uma facilidade inesperada naquela troca. Como se conversar com ele fosse menos difícil do que eu tinha imaginado.
Uma das pessoas que estava conosco chamou Elian para falar sobre outra questão da empresa. Ele se virou, respondeu brevemente e então voltou os olhos para mim.

— Acho que vou precisar tomar cuidado com o que digo perto de você.

Franzi a testa.

— Por quê?

O sorriso apareceu novamente. Aquele mesmo sorriso discreto que eu havia visto de longe.

— Você parece o tipo de pessoa que encontra significado até no que a gente fala sem pensar.

Antes que eu pudesse responder, alguém o chamou novamente. Ele se despediu com um aceno discreto e voltou para a conversa. Fiquei parada por alguns segundos. Olhando para ele se afastar. Não porque estivesse apaixonada. Nem porque acreditasse que aquela conversa significava alguma coisa. Não significava. Era apenas uma conversa. Um primeiro contato. Uma impressão.

Mas, pela primeira vez naquela manhã, eu não estava mais pensando apenas no homem que havia entrado naquela sala. Eu estava curiosa sobre o homem que existia por trás dele. E talvez essa fosse uma distração muito mais perigosa.

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