A coincidência.

O fim de tarde havia chegado devagar a Porto de Auria.

Depois de uma semana inteira entre campanhas, reuniões, documentos e prazos, eu tinha decidido me dar algumas horas de distância do computador.

A Casa Orbe era o lugar perfeito para isso.

Eu gostava daquela mistura improvável de livraria, café e galeria, todo final de semana eles colocam uma exposição diferente entre fotografias, pinturas autorais de artistas locais e nacionais e artes em cerâmica. Havia alguma coisa naquele espaço que fazia o tempo parecer mais lento. As paredes altas recebiam exposições temporárias, enquanto estantes de madeira ocupavam os corredores mais afastados. O cheiro de café recém-passado se misturava ao perfume discreto das flores que decoravam algumas mesas. 

Naquela tarde, a exposição era de pinturas contemporâneas de artistas locais. Eu já estava ali havia horas. Talvez porque não tivesse pressa de ir embora. Vestia um vestido longo em cor areia, com flores, salto fino que deixava o visual elegante sem parecer que eu havia me esforçado demais. O cabelo estava solto, caindo sobre os ombros, e eu havia escolhido um perfume que gostava particularmente.

Na mão, uma taça de vinho. Nos dias de exposição de obras artísticas, você pode escolher na carta de vinhos um roteiro de experimentação para ir degustando não somente a arte nos corredores, mas também os vinhos de produtores da Chapada Diamantina. 

Eu estava diante de uma pintura enorme, tentando decidir se gostava dela ou se apenas gostava da sensação que ela provocava.

Inclinei levemente a cabeça.

— Definitivamente gosto — murmurei para mim mesma.

Virei-me por um pequeno instante, como quem sente a presença de alguém chegando perto. O local não estava cheio, mas movimentado. Havia pessoas no café, na livraria, e algumas observando as obras de arte. Observei um andar elegante, o som dos sapatos no piso de madeira do local, uma silhueta familiar. Olhei rapidamente de baixo pra cima. E o mundo pareceu fazer uma pequena pausa. Elian. Ele vinha caminhando pelo saguão da exposição.

Eu não fazia ideia que Elian estava presente no café, numa mesa escondida entre prateleiras de livros no saguão da livraria, ele fazia reunião de trabalho com outros sócios no andar de baixo e também operava alguns projetos remotamente pelo notebook. A casa orbe tem coworking permitido, por ser um espaço enorme e multifuncional. 

Dois dos sócios estavam alguns passos à frente, conversando entre si depois da reunião que aparentemente acabara de terminar. Outros integrantes da equipe os acompanhavam. Elian vinha atrás. Sozinho. Até que seus olhos encontraram os meus. Ele diminuiu o passo, parecia levemente nervoso com o encontro repentino e não programado. Para uma pessoa que sempre controla tudo o que acontece na sua vida e aparenta ser perfeccionista demais, ele não parecia ser do tipo que acredita em coincidências. Eu o observei se aproximar. E, conforme ele vinha, aquela sensação familiar começou a se instalar. 

Surpresa. Coincidência. E um nervosismo que eu preferia não admitir. Ele parou ao meu lado. Sorriu. Aquele sorriso, desgraçadamente bonito.

— Oi. Tudo bem?

Eu precisei de um segundo a mais do que o normal para responder.

— Oi. Tudo bem. Sorri de volta.

Ele olhou rapidamente para a pintura. Depois para mim, de cima para baixo. Voltou o olhar para o meu e falou:

— Não sabia que você frequentava a Casa Orbe, gosto daqui também.

— Eu poderia dizer o mesmo. A arte misturada aos livros, as exposições de fotografias autorais, tudo é excelente. 

— Eu venho às vezes. Reuniões, principalmente. O espaço de coworking, você sabe. No andar inferior.

— Então você está aqui a trabalho. Retruco.

— Estava. Ele responde, arqueando levemente as sobrancelhas. Ele fez uma pequena pausa.

— Agora não mais. Sorri despretensiosamente. 

Meu sorriso aumentou.

— Entendi.

Ele se aproximou um pouco mais e abriu os braços para um cumprimento. Eu correspondi. O abraço foi diferente daquele primeiro no evento. Mais natural, mais próximo. E, dessa vez, um pouco mais apertado, de ambas as partes. Senti o cheiro de loção pós barba ao encostar o rosto no dele, levemente, enquanto ele me abraçava fazendo carinho com as pontas dos dedos nas minhas costas. Seu outro braço apertava levemente a minha nuca enquanto a gente se abraçava. 

Quando nos afastamos, ele ainda estava perto.

— Que cheiro bom. Ele comenta olhando diretamente nos meus olhos. Meu rosto esquentou imediatamente e eu corei horrores. Eu odiava quando isso acontecia. Odiava ainda mais quando alguém percebia. Elian percebeu. Claro que percebeu. Um sorriso discreto apareceu em seu rosto. Não era um sorriso debochado. Era quase divertido. Elegante. Como se ele tivesse achado adorável minha reação, mas tivesse a delicadeza de não dizer isso. Ele arqueou novamente as sobrancelhas como quem se divertiu com a minha reação inesperada. 

— Obrigada — respondi, tentando recuperar a compostura.

— Qual perfume?

— Um que eu gosto.

— Isso não respondeu nada.

Ri.

— Não vou contar.

— Então vou ter que descobrir.

— Boa sorte.

Ele sorriu novamente. Foi quando percebi uma coisa. O jeito como ele havia dito aquilo. O som das palavras. O ritmo. Havia um sotaque. Sutil, mas perceptível. Fiquei alguns segundos observando-o. Ele percebeu.

— O quê?

— Você tem um sotaque.

Ele arqueou uma sobrancelha.

— Tenho?

— Tem.

— Nunca repararam. 

Debochou. Claro que já repararam. 

— Talvez porque você fale pouco. Retruquei, em tom irônico. 

— Ou talvez você esteja prestando atenção demais. 

Ele sorri de forma divertida. 

Aquilo me pegou desprevenida. Baixei os olhos para a taça.

— Talvez.

Ele sorriu.

— E isso é bom?

Olhei novamente para ele.

— Ainda estou decidindo.

— Justo.

Ficamos alguns segundos em silêncio. Não era um silêncio desconfortável. Era o tipo de silêncio que parecia carregar alguma coisa. Ele olhou para a pintura.

— Você gosta mesmo de arte?

— Gosto.

— Ou está aqui para fugir do trabalho?

Eu ri.

— As duas coisas podem ser verdade.

— Então você realmente trabalha demais.

— Você descobriu isso em uma conversa?

— Não. Descobri no evento.

— Você estava prestando atenção?

— Eu presto atenção em muita coisa.

O olhar dele encontrou o meu.  Dessa vez, não havia nenhuma dúvida sobre o que ele queria dizer. Desviei os olhos primeiro.

— E você? — perguntei. — O que estava fazendo aqui?

— Reunião com alguns parceiros.

— Com os sócios?

— Sim.

— Parece menos divertido do que ficar olhando pinturas.

— Depende da pintura.

— E das pessoas na reunião?

Ele riu.

— Também.

Olhei para ele de lado.

— Você sempre responde uma pergunta com outra?

— Só quando não quero dar uma resposta muito fácil.

— Isso parece coisa de empresário.

— E você? Sempre analisa as pessoas como analisa textos?

— Talvez.

— Então estou sendo analisado agora?

— Um pouco.

— E qual é o diagnóstico?

Olhei para ele deliberadamente.

— Ainda inconclusivo.

Ele soltou uma risada baixa.

— Você é perigosa.

— Eu?

— Você.

— Sou copywriter.

— Eu sei.

— Então deveria saber que meu trabalho é fazer as pessoas prestarem atenção.

Ele ficou em silêncio por um instante.

— Isso você já conseguiu.

Meu coração deu uma pequena acelerada. Não porque eu acreditasse que aquilo fosse uma declaração.

Mas porque ele tinha dito de uma maneira muito tranquila. Sem exagero. Sem tentar impressionar.

E talvez por isso tivesse me atingido mais. Tomei um pequeno gole do vinho.

— Você fala assim com todo mundo? indaguei. 

— Assim como?

— Desse jeito.

— Que jeito?

— Como se sempre soubesse exatamente o que dizer.

Ele pensou por alguns segundos.

— Não.

— Não?

— Com você parece um pouco mais difícil. 

Dessa vez, fui eu quem ficou sem resposta. Ele percebeu. Mas, ao contrário do que eu esperava, não insistiu. Apenas voltou os olhos para a exposição.

— Qual foi sua favorita?

— Essa.

Apontei para a pintura diante de nós.

— Por quê?

Olhei novamente para a tela.

— Porque não entrega tudo de uma vez.

Ele acompanhou meu olhar.

— Você gosta de coisas que precisam ser descobertas?

— Algumas.

— Pessoas também?

Virei o rosto para ele.

— Principalmente pessoas.

Ele sustentou meu olhar por alguns segundos. Depois sorriu.

— Então acho que temos um problema.

— Por quê?

— Porque eu tenho a impressão de que você ainda não descobriu muita coisa sobre mim. Ele fala ficando sério, me encarando em seguida. 

— E isso incomoda você? Pergunto olhando em seus olhos. 

— Não.

Ele fez uma pausa.

— Na verdade, acho interessante.

Um dos sócios chamou seu nome ao longe. Elian olhou por cima do ombro.

— Já estão indo?

— Estão.

Ele voltou a olhar para mim.

— E você?

— Eu ainda vou ficar um pouco.

— Sozinha?

— Eu vim sozinha.

Ele assentiu. Como se registrasse aquela informação.

— Você costuma fazer isso?

— O quê?

— Vir sozinha para lugares assim.

— Costumo.

— Gosta?

Sorri.

— Muito.

Ele sorriu de volta.

— Eu imaginei.

— Como?

— Você parece gostar da própria companhia. Aquilo me fez sorrir de verdade.

— Gosto.

Ele ficou alguns segundos em silêncio. Então disse:

— É uma qualidade rara.

— Ou uma necessidade aprendida.

O sorriso dele desapareceu por um instante, dando lugar a uma expressão mais atenta.

— Talvez seja as duas coisas.

Não perguntei mais. Ele também não. Havia coisas que eu não tinha vontade de explicar para alguém que mal conhecia. E, curiosamente, parecia que ele entendia isso.

— Foi bom te encontrar aqui, Jullia.

— Também gostei da coincidência.

— Coincidência?

— Foi o que foi.

Ele sorriu.

— Talvez.

Mais uma vez, aquele olhar demorou um pouco mais do que deveria. Então ele deu um passo para trás.

— Eu preciso ir.

— Claro.

— Mas espero que essa não seja a última coincidência.

Meu sorriso surgiu antes que eu pudesse impedir.

— Porto de Auria é grande. Falei erguendo uma sobrancelha. 

— Nem tanto.

Ele se virou. Deu alguns passos. E, antes de alcançar os outros sócios, olhou para trás. Nossos olhos se encontraram uma última vez. Ele sorriu. Eu também. E fiquei ali, segurando minha taça de vinho diante daquela pintura que, de repente, já não parecia tão interessante quanto alguns minutos antes.

Não porque eu tivesse decidido alguma coisa. Eu não havia decidido absolutamente nada. Só sabia que, pela segunda vez, Elian tinha surgido no meu caminho quando eu menos esperava. E que aquela coincidência começava a parecer perigosamente interessante.

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